“Minha cabeça tá doendo!” A mãe ou o pai ouvem isso e ficam na dúvida: é coisa séria ou bobagem? Procuro o pediatra ou basta um copo d’água e um abraço? A cefaleia — nome técnico para dor de cabeça — é uma queixa comum também entre crianças, e uma das mais mal compreendidos pelas famílias.
É um equívoco achar que criança pequena não tem dor de cabeça “de verdade”. Cefaleia recorrente afeta entre 6 e 30% das crianças em idade escolar, e dois diagnósticos respondem pela grande maioria dos casos: a cefaleia tensional e a enxaqueca. Esta última é mais frequente na infância do que se imagina. Revisões sistemáticas estimam prevalência entre 7 e 10% nessa faixa etária, e pode chegar a 23% entre adolescentes. Apesar disso, é sistematicamente subdiagnosticada porque não se apresenta como “nas novelas”. Em vez da dor latejante unilateral clássica do adulto, a criança com enxaqueca frequentemente tem crises mais curtas, dor em ambos os lados da cabeça, náusea, vômitos e uma sensibilidade intensa à luz e ao barulho que a faz querer se enfiar debaixo do travesseiro. Há ainda um subtipo chamado enxaqueca abdominal, em que a dor se manifesta principalmente na barriga — com atrasos diagnósticos que chegam a anos, porque o quadro se confunde com outras causas de dor abdominal recorrente.
Já a cefaleia tensional costuma ser descrita pela criança como uma pressão ou aperto ao redor da cabeça. Ela está associada a fatores que muitas famílias vão reconhecer: noites mal dormidas, excesso de tela, estresse escolar, pular refeições, pouca água ao longo do dia e postura inadequada por horas diante do computador ou celular. A tensão muscular participa do quadro, mas o mecanismo é mais complexo: envolve sensibilização do sistema nervoso e fatores emocionais. Mas a modificação desses fatores comportamentais pode ajudar muito.
Por isso, antes dos remédios, há medidas que funcionam e estão ao alcance das famílias: regularizar o sono, garantir hidratação adequada ao longo do dia, evitar que a criança pule o café da manhã, reduzir o tempo de tela e criar momentos de leveza, brincadeira e movimento na rotina. Técnicas simples de relaxamento — respiração lenta, um ambiente escuro e silencioso durante a crise — ajudam muito. Massagens nos ombros, nuca e couro cabeludo podem ser úteis também.
O médico pode indicar um tratamento medicamentoso, eficaz na maioria das vezes. Para crises de enxaqueca em crianças, ibuprofeno e paracetamol têm evidência de eficácia quando usados precocemente na crise e nas doses corretas para o peso — com alguma vantagem para o ibuprofeno. A dipirona é pouco estudada porque não é comercializada em vários países. Mas é muito usada no Brasil, com bom perfil de segurança e ótima eficácia para dor e febre.
Em casos mais frequentes ou incapacitantes, existe tratamento preventivo — medicamentos usados diariamente para reduzir a frequência das crises — que só um pediatra ou neuropediatra deve indicar e monitorar. Automedicar criança em casa, repetidamente, sem orientação, traz um outro risco: o uso excessivo de analgésicos é ele próprio uma causa de cefaleia crônica, gerando um ciclo que pode ser difícil de quebrar.
E claro, há certas dores de cabeça que exigem atenção imediata. Se a dor surgir de forma súbita e abrupta, atingindo intensidade máxima em menos de um minuto; se vier acompanhada de febre alta com rigidez da nuca e pescoço, ou manchas na pele; se houver qualquer alteração na marcha, na fala, na visão, no equilíbrio ou no comportamento, procure imediatamente a emergência. Fale com o pediatra também se a criança piorar progressivamente a cada episódio, ao longo de dias ou semanas.









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