A transição de uma economia linear, baseada em extrair, produzir e descartar, para uma economia circular, que reintegra resíduos à cadeia produtiva como insumo, matéria-prima e fonte de renda, ganha forma em uma mostra sensorial no Espírito Santo. Uma bicicleta que tritura tampinhas plásticas e as transforma em novos produtos, e uma árvore líquida, capaz de absorver carbono da atmosfera, estarão lado a lado com outros artefatos que materializam, na prática, os princípios da economia e do design circular, que é transformar resíduo em produto, renda, investimento e conhecimento, elos importantes da Economia Circular. Os artefatos integram a 3ª parada do Roadshow Ambição Circular, que acontece na próxima terça-feira (21), na Findes, em Vitória.
A mostra chega em um momento de avanço, ainda tímido, na gestão de resíduos do país. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Abrema, o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) em 2024, e reciclou 8,7% deste volume, o equivalente a 7,1 milhões de toneladas. No caso específico dos plásticos, o cenário é um pouco mais animador. De acordo com um estudo do PICPlast (ABIPLAST/Braskem, conduzido pela MaxiQuim) aponta que o índice de reciclagem mecânica de plásticos pós-consumo chegou a 21% em 2024, subindo para 24,4% quando considerado apenas o segmento de embalagens.
“Esta mostra no Roadshow Ambição Circular, que escolheu o ES para ser o estado destaque no Sudeste, reforça o papel do Espírito Santo como protagonista na transição para uma economia circular. Reunir, em um mesmo espaço, iniciativas que já transformam resíduo em produto, renda e conhecimento é uma forma de demonstrar que o estado tem tecnologia, inovação e capacidade produtiva para liderar essa agenda”, destaca Mirela Souto, presidente do Instituto Marca.
Árvore líquida com algas marinhas que limpam carbono da atmosfera por fotossíntese
Giulianna Coutinho, diretora institucional e de marketing da GreenWay, vai apresentar uma árvore líquida, que possui tecnologia que utiliza microalgas para capturar carbono da atmosfera. “Cada árvore remove até 2 toneladas de CO2 por ano, e um conjunto de 10 árvores líquidas equivale à capacidade de sequestro de carbono de 500 árvores convencionais, que ocupariam um hectare de área urbana. A biomassa gerada pela tecnologia pode ser destinada em diversas frentes, entre elas cosméticos, nutrição animal e biocombustíveis e bioinsumos agrícolas”, explica.
A empresa também vai apresentar um bioestimulante e biofertilizante produzido a partir da biomassa de microalgas da GreenTree, sua estrutura urbana viva que monitora, trata o ar e sequestra CO2 com desempenho muito superior ao de uma árvore convencional.
Outro destaque é a URCA (Unidade de Remoção de Carbono por Algas), que captura CO2 direto da atmosfera e o transforma em carbonato, produzindo seixos que simulam a tecnologia de remoção oceânica de carbono, estruturas bioengenheiradas que atuam como substrato para restauração de habitats marinhos e removem CO2 por um processo de alcalinização. A mostra ainda traz artefatos cimentícios produzidos a partir de carbonato de cálcio (CaCO₃), subproduto da captura industrial de CO2 pela URCA, carbono que, em vez de voltar à atmosfera, vira insumo para material de construção.
“Nosso propósito é simplificar a jornada de descarbonização das indústrias, transformando emissão em ativo. A tecnologia enfrenta dois problemas ao mesmo tempo. O primeiro é a pressão crescente sobre indústrias intensivas em emissões, siderurgia, cimento, energia, agronegócio, mineração, para reduzir e compensar o carbono que lançam na atmosfera, num cenário de regulação crescente tanto no Brasil quanto na Europa. O segundo é a demanda por insumos agrícolas de origem biológica, produzidos localmente e com menor impacto ambiental. Nossa tecnologia de microalgas conecta os dois problemas em uma única solução circular, capturamos o CO2 direto de fontes industriais e transformamos a biomassa resultante em bio insumo agrícola, produzido no próprio território onde será usado. O contexto em que essa tecnologia surge é estratégico. O Brasil importa entre 85% e 90% dos fertilizantes que consome e a instabilidade no Estreito de Ormuz, passagem crítica para o abastecimento global de insumos agrícolas, escancarou o tamanho dessa vulnerabilidade. Para o produtor capixaba de café, cacau, hortifruti e fruticultura, que sente diretamente a oscilação de preço dos fertilizantes nitrogenados e fosfatados, essa equação é familiar e urgente”, explica Giulianna.
Bike trituradora de plástico, e novo design para produção de bancos feitos com quase 400 copos e 5 mil tampinhas, serão estrelas da mostra
Outro destaque da mostra é a Fantástica Carpintaria, laboratório de reciclagem criativa e design circular que vai levar ao evento a bike trituradora de tampinhas plásticas em funcionamento. Sua Materioteca, acervo de resíduos triturados usados como matéria-prima para novos produtos também estará na exposição, com peças que mostram o potencial do plástico transformado, como um banco feito com 380 copos de água reciclados e outro produzido a partir de 5.867 tampinhas plásticas coletadas, além de uma cadeira reciclada a partir de um cesto de roupas, surgindo assim um design circular na criação de novos produtos.
Além da transformação do material, o laboratório tem investido no fortalecimento da frente educacional, com formações e imersões que já atenderam 518 pessoas entre professores, criativos e gestores neste ano. A Fantástica Carpintaria mantém coletores ativos em nove espaços culturais do Centro de Vitória e desenvolveu dois jogos educativos, um digital e um de tabuleiro, além de um kit didático para educadores, ampliando o alcance das ações para além do espaço físico do laboratório.
“Mais do que a quantidade de resíduos processados, nosso foco está no impacto social desse ciclo, que é mobilizar pessoas para a destinação correta dos materiais, fortalecer redes de colaboração e transformar esses resíduos em equipamentos que retornam à comunidade como espaços de convivência, aprendizado e uso coletivo”, comenta Juliana Lisboa, fundadora da Fantástica Carpintaria.
Terra vegetal e composto orgânico produzido a partir de podas de árvore, resíduo animal e orgânico.
A Marca Composto Orgânico vai levar à mostra composto orgânico e terra vegetal produzidos a partir de resíduos como poda de árvores, rúmen e resíduo orgânico, por meio do processo de compostagem. A terra vegetal é peneirada e pronta para uso em jardins, gramados, vasos e hortas, rica em nutrientes que aceleram o crescimento e o desenvolvimento das plantas. Já o composto orgânico é indicado para fertilização de jardins, gramados, vasos e hortas, com macro e micronutrientes responsáveis pela reestruturação e melhoria de solo degradado. “Esses insumos voltam para a cadeia produtiva e são comercializados em floriculturas, casas agrícolas e no comércio de produtos de jardinagem em geral”, explica Wanderson Franco Almeida, coordenador da Marca Composto Orgânico.
Entre janeiro e junho de 2026, a empresa já recebeu cerca de 5.712 toneladas de resíduos destinados à compostagem, entre poda de árvores, rúmen e resíduo orgânico. Do total, mais de 2.234 toneladas correspondem a resíduo orgânico e cerca de 1.847 toneladas a poda e galhada, volume que reforça a escala do trabalho de transformação de resíduo em adubo e terra vegetal apresentado na mostra.
Exposição conta, ainda, com mostra de produtos feitos à base de pneus inservíveis
Com vida útil de 40 a 60 mil km, os pneus de carros de passeio se tornam inservíveis quando não podem mais ser reformados ou recauchutados, e é aí que começa o desafio ambiental. Um pneu pode levar cerca de 600 anos para se decompor na natureza, quando queimado, libera fumaça com poluentes como carbono e enxofre, e quando descartado em terrenos baldios, vira criadouro de mosquitos.
Esse passivo ambiental virou ativo para a economia capixaba. A Pneuvix Ambiental, única recicladora do tipo de material no Espírito Santo, reaproveita 100% do pneu, separando borracha, nylon e aço, e já processa cerca de 6 mil toneladas de pneus inservíveis por ano, o equivalente a 450 mil unidades, recebidas de borracharias, transportadoras e lojas especializadas.
Na mostra, o público vai poder ver de perto as diferentes etapas dessa transformação. O chip de pneu, resultado da primeira trituração, e os grânulos e pós que dão origem a produtos como pisos emborrachados, anilhas de musculação e artefatos usados em campos society e playgrounds. “A ideia é agregar valor ao material reciclado aqui mesmo no Estado e fortalecer toda a cadeia produtiva”, destaca Luiz Alberto Baptista, diretor executivo da empresa, sobre a THREEBOR, nova fábrica do grupo dedicada à fabricação de artefatos de borracha como piso e anilha de academia.
Selo para empresas e indústrias moveleiras será apresentado como diferencial competitivo
Completa a mostra o Selo de Circularidade da Indústria Moveleira, desenvolvido pela pesquisadora e professora Giusilene Costa, do Ifes, em parceria com alunos de engenharia ambiental, arquitetura, economia e engenharia de produção. O selo mapeia o grau de maturidade circular das indústrias moveleiras do Espírito Santo, muitas delas circulares sem saber, e classifica as empresas em categorias ouro, prata e bronze, abrindo caminho para benefícios fiscais e acesso a certificações internacionais. Móveis feitos a partir de reciclagem serão expostos na ocasião.
Sobre o Roadshow Ambição Circular
O Roadshow Ambição Circular é uma iniciativa do Instituto Brasileiro de Economia Circular (Ibec), por meio do Hub de Economia Circular Brasil (HubEC), que percorre as cinco regiões do país para conectar indústria, governo, academia e especialistas internacionais em torno da transição circular brasileira. A jornada começou em Porto Alegre (março), passou por Brasília (maio) e chega agora a Vitória, seguindo para Salvador (setembro) e Manaus, às vésperas da COP30. Criado em 2020, o HubEC já promoveu 24 encontros estratégicos, reunindo mais de 30 empresas-membro, 90 especialistas e 19 organizações internacionais de 8 países. A meta do Roadshow é transformar dados em plano de ação concreto para a indústria brasileira, com entrega prevista até o fim de 2026.
O tema da parada capixaba é valorização de resíduos em escala, com foco na visão sistêmica da Economia Circular como estratégia de desenvolvimento territorial. O Instituto Marca Ambiental, centro de pesquisa e referência regional, é o host do encontro. Um grande destaque será a apresentação do Case da Syctom, maior operadora europeia de gestão de resíduos urbanos da França, por meio do que terá como keynote internacional o especialista francês Nicolas Buchoud, presidente da Aliança da Grand Paris pelo Desenvolvimento Metropolitano (Cercle Grand Paris de lÍnvestissement Durable), membro da Global Solutions Initiative e representante da Syctom.
Para quem é o evento?
A programação prevê a participação de lideranças da indústria, representantes do setor público, do sistema S, startups, do setor financeiro, e da sociedade civil (ONGs), em torno de temas como a importância de uma política industrial forte para a transição circular, a criação de mercado para materiais secundários, educação profissional técnica para qualificar a força de trabalho local, Economia Circular como estratégia de desenvolvimento territorial e gestão de riscos e responsabilidade corporativa na transição.
Entre os painelistas previstos estão representantes da ArcelorMittal, Findes, Tomra Brasil, MEC/Sietec, Marca Ambiental e da agenda da COP30, evidenciando a conexão entre a circularidade e os compromissos climáticos brasileiros.
Serviço
A mostra expositiva de economia circular acontece na 3ª parada do Roadshow Ambição Circular 2026 Espírito Santo
Terça-feira, 21 de julho, das 8h30 às 17h
No Prédio da Findes, Reta da Penha, 3º andar, Vitória (ES)
Mais informações: instituto@marcaambiental.com.br








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