Santa Teresa ganha Via Sacra com esculturas gigantes

Santa Teresa ganha Via Sacra com esculturas gigantes

Uma das tradições religiosas mais simbólicas do catolicismo ganha uma nova leitura em Santa Teresa. Nesta quarta-feira (1º), às 9h, será inaugurado o Grupo Escultórico Via Sacra, da artista capixaba Vania Cáus, com 14 estações instaladas em via pública no centro da cidade.

A obra transforma o percurso tradicional da Via Sacra em uma experiência artística e sensorial. Cada estação tem cerca de 2,5 metros de altura, pesa aproximadamente 1 tonelada e integra um trajeto de cerca de 1 quilômetro, aberto à visitação. As esculturas foram construídas sobre base de alvenaria e revestidas com mosaicos que combinam materiais como vidro, cerâmica, pedra, murano, metais e madeira.

Mais do que representar os episódios da crucificação de Cristo, o projeto propõe um convite à reflexão e à contemplação, conectando fé, memória e cotidiano por meio de diferentes linguagens artísticas.

Arte, tradição e experiência no espaço urbano
Inspirado em referências afetivas da artista, como os altares da Igreja Matriz de Santa Teresa e os oratórios de infância, o projeto apresenta uma releitura contemporânea da Via Sacra.

O mosaico, elemento central da obra, aparece combinado a materiais como vidro, pedras, cerâmica, metais e madeira, criando superfícies marcadas por textura e cor. A proposta dialoga com influências da estética de Antoni Gaudí, ao mesmo tempo em que reforça a pesquisa autoral de Vania Cáus.

Ao ocupar o espaço público, a instalação amplia o acesso a uma tradição antes mais associada a ambientes religiosos, promovendo um encontro entre arte, espiritualidade e cidade.

Trajetória da artista
Vania Cáus é um dos principais nomes das artes visuais no Espírito Santo, com atuação destacada em escultura, mosaico e arte pública. Entre suas obras está o Monumento às Paneleiras de Goiabeiras, em Vitória.Material de referência geográfica

Sua produção investiga as relações entre matéria, memória e espiritualidade, com trabalhos que traduzem identidades culturais em linguagem contemporânea.

Entrevista com a artista:

  1. Como surgiu a proposta da Via Sacra em espaço público?

Vania Cáus: A proposta nasce de uma relação pessoal com a iconografia religiosa e com imagens presentes na vida cotidiana, como oratórios e altares, que sempre fizeram parte do meu repertório visual. Ao longo do tempo, essa presença se transformou em campo de investigação artística, não apenas como tema, mas como estrutura simbólica capaz de atravessar diferentes contextos. Trazer a Via Sacra para o espaço público foi uma forma de deslocar essa tradição, ampliando o acesso e permitindo que ela dialogue com a cidade. Isso faz com que a obra deixe de ser apenas devocional e passe a operar também como experiência estética, aberta a múltiplas interpretações.

  1. Qual o papel do mosaico no projeto?

Vania Cáus: O mosaico é a base da linguagem do trabalho e cumpre uma função estrutural. Ele permite trabalhar com fragmentos, o que gera uma construção visual feita por partes, criando variações de textura, cor e reflexão. Ao longo do dia, a incidência de luz modifica a percepção das superfícies, o que faz com que a obra não seja fixa. Além disso, o uso de materiais diversos amplia essa complexidade, produzindo uma superfície viva. O fragmento também tem um papel conceitual importante, pois sugere recomposição e processo, algo que se constrói a partir de elementos distintos e que dialoga com a própria experiência do percurso.

  1. Qual a importância da escala?

Vania Cáus: A escala foi pensada para garantir presença e permanência no espaço urbano. As peças, com cerca de 2,5 metros de altura e aproximadamente 1 tonelada, estabelecem uma relação direta com a paisagem, funcionando como marcos ao longo do trajeto. Essa dimensão permite uma leitura em diferentes distâncias: de longe, o conjunto se apresenta como sequência contínua; de perto, revela detalhes da materialidade e da construção em mosaico. O peso também reforça a ideia de permanência, indicando que se trata de uma obra pensada para durar e se integrar ao cotidiano da cidade.

  1. Como o público se relaciona com a obra?

Vania Cáus: A relação se dá pelo deslocamento. O público é convidado a percorrer as 14 estações, criando uma experiência que envolve tempo, corpo e observação. Não há um único modo de fruição, e isso é um aspecto importante do projeto. Cada pessoa pode caminhar no seu ritmo, parar em determinadas estações, retornar ou simplesmente atravessar o percurso. O ambiente urbano também interfere diretamente nessa experiência, com variações de luz, clima e presença de outras pessoas. Esses elementos tornam cada percurso único, ampliando as possibilidades de leitura e interpretação.

  1. Como a obra dialoga com a tradição?

Vania Cáus: Existe um reconhecimento da narrativa da Via Sacra, mas sem a intenção de reprodução literal. A proposta é trabalhar com essa estrutura como referência, permitindo liberdade formal na construção das imagens. O uso do mosaico, a escala das peças e a inserção no espaço público já produzem um deslocamento em relação à tradição. Ao mesmo tempo, elementos simbólicos permanecem, possibilitando identificação por parte do público. Esse equilíbrio entre continuidade e transformação permite que a obra seja compreendida tanto como expressão cultural quanto como proposição contemporânea, aberta a diferentes leituras.

Serviço
Entrega do Grupo Escultórico Via Sacra – Vania Cáus

Data: 1º de abril de 2026
Horário: 9h
Local: Centro de Santa Teresa, no Capitel de Santo Antônio

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