Libido muda com a idade? Estudo aponta diferenças entre homens e mulheres

Libido muda com a idade? Estudo aponta diferenças entre homens e mulheres

Durante décadas, consolidou-se a narrativa de que o desejo masculino atinge o auge aos 20 anos, impulsionado por níveis elevados de testosterona, e entra em declínio inevitável após os 30, acompanhando a queda anual estimada de cerca de 1% do hormônio. A explicação biológica, repetida à exaustão, ajudou a sustentar uma ideia quase automática sobre libido e envelhecimento. Mas um estudo recente publicado na Scientific Reports propõe uma leitura menos linear, e mais complexa, sobre o tema. A conclusão: o desejo sexual, para homens e mulheres, não cabe em fórmulas simplificadas.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Tartu, na Estônia, que analisaram dados de 67.334 pessoas entre 20 e 84 anos. Idade, gênero, orientação sexual, estado civil, número de filhos, escolaridade e profissão entraram na equação para investigar como diferentes dimensões da vida se relacionam com a libido.

Os resultados indicam que fatores sociais, relacionais e circunstanciais respondem por cerca de 28% da variação do desejo. A biologia, portanto, é relevante, mas não soberana. Contexto importa, e muito.

“Os hormônios são importantes, mas não são tudo, e sua importância relativa varia ao longo da vida”, afirmou Toivo Aavik, professor da Universidade de Tartu e um dos autores do estudo, à Euronews Health.

Entre os homens, os dados desafiam o senso comum. O pico não aparece na faixa dos 20 anos. Ao contrário: o desejo tende a crescer até o início dos 40, iniciando depois uma queda gradual. O dado chama atenção porque, nessa fase, a testosterona já está em declínio. Em outras palavras, a curva da libido não acompanha mecanicamente a curva hormonal.

A partir dos 60, a redução se torna mais pronunciada, possivelmente associada a questões de saúde. O levantamento também encontrou diferenças relacionadas à ocupação profissional. Operadores de máquinas, gestores seniores, motoristas e militares relataram níveis mais elevados, enquanto profissionais de escritório e atendimento ao público indicaram índices menores. Embora não seja possível estabelecer causa e efeito, os achados sugerem que rotina, grau de autonomia, estresse e dinâmica social podem influenciar a experiência do desejo.

Entre as mulheres, o padrão é distinto. Os níveis tendem a ser mais altos entre os 20 e os 30 anos, com declínio mais acentuado após os 50, período que coincide com a menopausa e a queda do estrogênio. A diferença média entre homens e mulheres foi uma das mais consistentes da pesquisa: mesmo no auge feminino, os índices médios permaneceram abaixo dos masculinos na maior parte da vida adulta.

Ainda assim, os próprios autores alertam para o risco de generalizações. Estatísticas não determinam trajetórias individuais. Houve mulheres com alta libido em todas as faixas etárias e homens jovens com níveis reduzidos.

“Em muitas sociedades, a excitação sexual masculina é expressa de forma mais visível e socialmente legítima de ser relatada. As mulheres podem subnotificar o desejo em pesquisas por uma série de razões: normas internalizadas, incerteza sobre o que conta como ‘desejo’ ou preocupação com o estigma”, disse Aavik.

“Ao mesmo tempo, a experiência sexual feminina pode ser mais complexa. As mulheres podem sentir excitação sem a rotular como ‘desejo’ ou podem sentir um desejo que é mais condicionado pelo contexto”, acrescentou.

A orientação sexual também apareceu como variável relevante. Participantes bissexuais e pansexuais relataram níveis mais altos do que heterossexuais, enquanto pessoas que se identificaram como assexuais apresentaram, como esperado, os índices mais baixos. Viver com parceiro ou parceira esteve associado a uma leve redução quando comparado a pessoas solteiras.

A presença de filhos revelou um contraste interessante: entre mulheres, maior número esteve ligado a níveis ligeiramente menores; entre homens, ocorreu o oposto. Uma das hipóteses levantadas pelos autores é a sobrecarga de responsabilidades, que ainda recai de forma mais intensa sobre elas. Outra possibilidade é que níveis mais altos de libido masculina contribuam, ao longo do tempo, para famílias maiores.

O que o estudo não responde
Apesar da amostra robusta, há limitações importantes. Trata-se de um estudo transversal — os dados foram coletados em um único momento, por meio de questionários. É um retrato estático, não um acompanhamento ao longo dos anos. Assim, é possível identificar associações, mas não afirmar causalidade.

As informações também são autorrelatadas. Em temas ligados à sexualidade, isso pode fazer diferença. Vergonha, expectativa social e a própria interpretação do que significa “desejo” influenciam as respostas. Alguns homens podem se sentir mais confortáveis em declarar níveis elevados por uma questão cultural; mulheres podem minimizar ou enquadrar de maneira distinta o que sentem.

Além disso, o levantamento não considerou variáveis que impactam significativamente a vida sexual, como saúde mental, doenças crônicas, uso de medicamentos, dosagens hormonais medidas diretamente ou traços de personalidade. Todos esses elementos podem interferir na libido.

Por isso, Aavik reforça que os resultados devem ser lidos como médias estatísticas, não como regras universais. Tendências ajudam a ampliar o entendimento, mas não substituem a complexidade da experiência individual. Quando o assunto é desejo, a biologia dialoga com contexto, história e cultura, e raramente fala sozinha.

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