Como encontrar a posição ideal para dirigir? Especialistas explicam

Como encontrar a posição ideal para dirigir? Especialistas explicam

A forma como o motorista se posiciona ao volante vai muito além do conforto. Estudos da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) mostram que problemas de saúde relacionados à condução estão por trás de cerca de 170 mil sinistros registrados em rodovias brasileiras em 2022. Esse cenário reforça a importância da ergonomia: pequenos ajustes de banco, volante e retrovisores são capazes de reduzir a fadiga, evitar dores musculares e até melhorar a capacidade de reação em situações críticas no trânsito.

Afinal, não se trata apenas de evitar desconforto após horas de viagem. “A postura inadequada compromete a circulação, deixa o motorista mais cansado e pode atrasar reações importantes”, explica o Dr. Ricardo Hegele, vice-presidente da Abramet. Esse atraso, mesmo de frações de segundo, pode ser decisivo em uma frenagem ou desvio de obstáculo. Ou seja, a ergonomia deve ser entendida como parte integrante da segurança viária, tão essencial quanto o uso do cinto de segurança.

O que é ergonomia ao dirigir e por que ela é essencial
A ergonomia aplicada à direção adapta o posto de condução às características físicas e funcionais do motorista. Isso envolve a regulagem do banco (altura, distância e inclinação), o apoio lombar, a posição das mãos no volante, o alcance dos pedais e a visibilidade dos retrovisores. “Ela busca reduzir sobrecarga musculoesquelética, fadiga e risco de erros humanos”, afirma Hegele.

Deixar esses cuidados de lado não é raro, especialmente entre motoristas profissionais. Nesse grupo, a incidência de lombalgias e distúrbios circulatórios é elevada, consequência de jornadas prolongadas em más condições ergonômicas. Segundo a Abramet, a sonolência e a fadiga estão entre as causas mais recorrentes de acidentes nas rodovias. “Mais de 50 mil pessoas ficaram feridas em 2022 devido à falta de resposta imediata em emergências”, lembra o diretor científico da entidade, Flavio Adura.

Principais erros de postura e suas consequências

Entre os erros mais comuns estão banco muito próximo ou distante do volante, encosto excessivamente reclinado, pernas totalmente esticadas e retrovisores mal regulados. Segundo Roberto Manzini, instrutor de direção defensiva e esportiva, “bancos longe ou perto demais, encosto do banco mal ajustado e retrovisores mal regulados são falhas frequentes que prejudicam a visão e a precisão dos comandos”.

Esses erros não comprometem apenas o conforto, mas também a saúde. “Se o banco está muito próximo, braços e pernas ficam dobrados em excesso, o que limita a mobilidade em manobras rápidas. Já se está distante demais, os braços ficam esticados, dificultando a força nos pedais e a precisão no volante”, alerta Hegele. Além das dores musculares e sobrecargas circulatórias, como inchaços e varizes, a má postura pode elevar o risco de trombose venosa profunda em viagens longas.

Como ajustar banco, volante e retrovisores corretamente
A Abramet recomenda que os joelhos fiquem semiflexionados, formando um ângulo próximo de 120°. O encosto do banco deve ter inclinação entre 100° e 110°, garantindo apoio lombar e mantendo a curvatura natural da coluna. “Uma boa medida é regular o encosto ou o volante de forma que, com o braço estendido, o punho toque a parte superior do aro. Assim, ao dirigir, os cotovelos permanecem semiflexionados, oferecendo mobilidade e segurança”, ensina Manzini.

A altura do banco deve permitir visão plena do painel e da via, enquanto os retrovisores precisam ser ajustados antes da partida. “Eles devem reduzir ao máximo os pontos cegos e ampliar a visão lateral e traseira, sem que o motorista precise virar exageradamente a cabeça”, explica Hegele. Já o encosto de cabeça deve estar alinhado ao topo da cabeça, com distância mínima, ajuste essencial para reduzir o risco de lesões cervicais em colisões traseiras.

Viagens longas e cuidados adicionais
Em percursos prolongados, os cuidados ergonômicos precisam ser reforçados. “Motoristas que ficam muito tempo sentados podem desenvolver dores crônicas e até trombose venosa profunda, uma condição grave que pode evoluir para complicações fatais”, alerta Hegele. Para evitar esses problemas, a recomendação é fazer pausas a cada duas horas, sair do carro, caminhar e alongar o corpo.

Além disso, sono adequado, alimentação leve e hidratação constante são fundamentais para manter a atenção. Vale alerta para o uso de medicamentos que causam sonolência, que podem comprometer a condução tanto quanto o álcool. Só em 2022, o consumo de bebidas alcoólicas foi responsável por mais de 28 mil acidentes nas rodovias, resultando em 10,8 mil feridos e 1,2 mil mortes, segundo a associação.

Ergonomia em tempos de tecnologia e direção semiautônoma
Com o avanço dos assistentes de condução, como piloto automático adaptativo e manutenção de faixa, muitos motoristas tendem a relaxar a postura. Esse comportamento é arriscado, pois aumenta o tempo necessário para retomar o controle do veículo em emergências. “Mesmo em carros semiautônomos, manter o banco reclinado, pés afastados dos pedais ou braços muito estendidos atrasa a reação do condutor. Frações de segundo podem ser decisivas entre a vida e a morte”, alerta o Dr. Ricardo Hegele, da Abramet.

Além disso, veículos modernos oferecem cada vez mais recursos de conveniência, como bancos elétricos com memória de posição, regulagem lombar e até massageadores. Esses itens podem ser aliados da ergonomia, desde que usados corretamente. “A posição correta ao dirigir é a mesma em veículos com ajustes manuais ou elétricos. Esses recursos ajudam, mas não substituem a postura ideal”, reforça Roberto Manzini.

O instrutor também chama atenção para os volantes multifuncionais, já presentes em grande parte dos modelos atuais. “Procure treinar o uso com o veículo parado, pois explorar as funções desses botões em movimento pode gerar distrações inconvenientes, aumentando o risco de acidentes”, orienta. Nesse sentido, a tecnologia deve ser vista como apoio, mas nunca como justificativa para negligenciar a postura correta e a atenção ao volante.

Diferenças de ergonomia entre carros, caminhões, ônibus e motocicletas
A ergonomia varia de acordo com o tipo de veículo, já que cada posto de condução exige ajustes e cuidados específicos. “Nos carros de passeio, a posição correta depende principalmente da regulagem de banco, encosto, volante e retrovisores, o que já garante conforto e segurança”, explica Hegele. No entanto, em veículos maiores, como caminhões e ônibus, a situação é mais complexa.

Esses veículos possuem cabines mais altas, pedais mais pesados e volantes maiores, o que aumenta a sobrecarga em joelhos, ombros e cotovelos durante longas jornadas. “Há também maior incidência de vibrações transmitidas pelo motor e pelo assoalho, que exigem assentos adequados para absorver impactos e reduzir o cansaço do motorista”, detalha o especialista. Além disso, a visibilidade precisa ser compensada com espelhos maiores e mais bem posicionados, de modo a reduzir pontos cegos.

No caso das motocicletas, os desafios ergonômicos são diferentes e variam de acordo com o modelo. Em esportivas, o piloto adota posição mais inclinada para a frente, o que sobrecarrega punhos e braços; já em estradeiras, a postura mais ereta exige cuidado para não gerar tensão lombar. “O importante é que o motociclista mantenha apoio firme nos pés e equilíbrio dos braços, para evitar desgaste excessivo nos punhos e manter o controle da moto com segurança”, completa Hegele.

Ergonomia e segurança: dois lados da mesma moeda
Embora os estudos ainda sejam limitados, a relação entre postura incorreta e acidentes de trânsito é considerada plausível pelos especialistas. “Quando o motorista está desconfortável, fatigado ou com mobilidade limitada, há perda de eficiência psicomotora e maior probabilidade de se envolver em acidentes”, resume Hegele. Manzini complementa: “O posicionamento correto aumenta o campo de visão, a agilidade e a precisão nos comandos. Ergonomia é segurança”.

No fim das contas, ergonomia ao dirigir não deve ser vista como mero detalhe ou busca por conforto. Ajustar banco, encosto, volante e retrovisores antes de ligar o motor é tão importante quanto afivelar o cinto de segurança. Pequenos cuidados preservam a saúde, aumentam a atenção no trânsito e podem salvar vidas.

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