A frase criada pelo médico suíço Paracelso no século XV — “a dose faz o veneno” — nunca foi tão atual. O crescente uso de vitaminas e suplementos alimentares, muitas vezes vistos como soluções rápidas para ganho de performance e bem-estar, tem provocado um aumento expressivo nos casos de intoxicação.
Dados da Anvisa mostram que, desde 2024, foram registradas 240 notificações de efeitos adversos ligados ao uso de suplementos vitamínicos, sendo 28% considerados graves. No mesmo período, mais de 62 mil anúncios irregulares desses produtos foram retirados da internet. A indústria, que movimenta mais de R$ 4 bilhões por ano, avança em um mercado repleto de produtos sem comprovação científica sólida.
Casos como o da empresária Perinalva Dias, que passou 28 dias em coma após intoxicação por vitamina D, evidenciam os riscos da banalização desses produtos. A nutricionista Silvia Hespanha reforça a máxima de Paracelso: qualquer nutriente pode ajudar ou prejudicar dependendo da dose e da necessidade real do organismo. Ela lembra que “suplemento é complemento”, e só deve ser usado após avaliação clínica e confirmação laboratorial de deficiência.
Quando a vitamina vira risco
Silvia explica que vitaminas hidrossolúveis (como C e complexo B) são eliminadas com mais facilidade, mas podem causar desconfortos gastrointestinais ou sintomas neurológicos em excesso. Já as lipossolúveis (A, D, E e K) se acumulam no organismo e são responsáveis pelos casos mais frequentes de toxicidade. Entre os sinais comuns estão descamação da pele, queda de cabelo, náuseas, dor abdominal, sangramentos e alterações na coagulação.
O diagnóstico costuma levar em conta o surgimento de novos sintomas, o uso recente de suplementos e exames que apontam dosagens elevadas.
Os suplementos mais populares e seus riscos
O whey protein, o suplemento mais consumido no país, geralmente é seguro para pessoas saudáveis quando usado nas doses recomendadas. Porém, em indivíduos com doença renal prévia, pode agravar o quadro. Já a creatina é considerada segura dentro dos limites usuais, mas há relatos de problemas renais quando utilizada de forma excessiva ou sem acompanhamento.
Suplementos multi-ingredientes e polivitamínicos são ainda mais preocupantes, pois podem causar lesões hepáticas ou sobrecarga renal. Há séries de casos documentando hepatotoxicidade decorrente desse tipo de produto.
Pré-treinos e termogênicos: riscos ainda maiores
Produtos pré-treino e termogênicos frequentemente trazem doses elevadas de estimulantes como cafeína, sinefrina e yohimbina — e, em alguns casos, até substâncias proibidas. Entre os efeitos perigosos estão taquicardia, arritmias, hipertensão, ansiedade, insônia e, em situações extremas, rabdomiólise.
Segundo Silvia, o cenário atual reflete a busca por resultados rápidos, muitas vezes estimulada por marketing agressivo. Isso leva usuários a combinarem produtos ou aumentarem doses por conta própria — fórmula comum para intoxicação.
Ética profissional e responsabilidade social
Silvia alerta que muitas pessoas veem os suplementos como atalhos, quando a base real da saúde continua sendo alimentação equilibrada, sono adequado e rotina organizada. Ela também critica práticas de clínicas e profissionais que promovem soro “milagroso” ou megadoses sem evidência científica.
Para ela, o caminho seguro é avaliar cada paciente individualmente, entender seu histórico e só então considerar o uso de suplementos — sempre lembrando que o rótulo “natural” não significa ausência de risco.









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